Lembranças de minha infância

Não são muitas pois,  deletei de minha mente grande parte delas para não sofrer com o passado.

Lembro-me dos meus irmãos sempre me atormentando com traquinagens, “brincadeiras sem graça” que hoje ao recordar com uma mente madura vejo que tinham lá o seu lado engraçado.

Sempre fui muito individualista e sendo a única menina, caçula e com uma boa diferença de idade entre meus irmãos (8 e 7 anos respectivamente) não via porque inseri-los no meu mundo. Mundo esse que era o meu quarto onde vivia histórias fantásticas com minhas bonecas.

Meu irmão do meio que era o mais carente de atenção da família, era o que mais me atormentava com as traquinagens; o outro amadureceu muito cedo por ter a missão de ser o futuro chefe da família.

Numa certa época meu irmão do meio pegou a “mania” de virar minhas bonecas de cabeça pra baixo toda vez que eu me pegava distraída. Era enlouquecedor, num momento as bonecas estavam sentadinhas em seu sofá, eu me virava por um segundo e no instante seguinte lá estavam elas de cabeça pra baixo. Ele jurava que não havia mexido, eu ficava possessa e gritava: “Oh mãe! Tira esse diabo daqui!”

Um episódio marcante aconteceu por volta dos meus 6/7 anos: Um dia cheguei da escola e encontrei a porta do meu quarto fechada com uma folha sulfite feito uma plaquinha aonde estava escrito: “CUIDADO! QUARENTENA! EPIDEMIA DE CABEÇAPRABAIXITE”

Quando abri a porta encontrei todas as minhas bonecas e bichinhos de borracha virados de cabeça pra baixo.

Eu tinha muitas bonecas, porque meu pai era dono de depósito de sucata e o forte de seu negócio era aparas de papel e plástico. No meio do lixo reciclável de plástico vinha sempre muitos brinquedos. Então lá ia eu caminhando sobre toneladas de lixo em busca de brinquedos a serem resgatados.

Eu achava que as pobres criaturinhas de plástico e borracha mereciam uma segunda chance depois de terem sido desprezadas por causa de um braço, perna ou pescoço quebrado.

Eu resgatava as bonecas e os bichinhos, prestava a assistência “médica” necessária, fazendo remendos, implantes e até transplantes e então eles entravam para o elenco do meu grande teatro.

Sim brincava com minhas bonecas e bichos de maneira teatral. Eu criava histórias baseadas nos filmes e novelas que via na TV e também nos livros (todos romances) que recolhia no lixo de papel. Eu escolhia as criaturas que representariam cada personagem, os animais faziam papel de gente assim como nas fábulas (o elefante representava um homem gordo e rico por exemplo). Também construía cenários e fazia figurinos condizentes com a época histórica. E ali brincava até a história acabar.

Havia a soap ópera da Barbie (uma história que não acabava nunca); as minisséries (que duravam o tempo das férias de julho por exemplo) e as novelas (que duravam meses).

Tive apenas duas companheiras nessas brincadeiras, apenas duas meninas conseguiram e quiseram acompanhar essa maneira de brincar.

Só abandonei as bonecas aos 15 anos.

Meu pai foi a figura mais marcante de minha infância seguida de meu irmão do meio (os dois nunca se deram bem, eram como cão e gato)

Meu pai era um homem maravilhoso, quando sóbrio e um monstro violento quando bêbado. Passava a semana toda como monstro, o dia todo fora trabalhando e quando chegava em casa à noite começava o inferno.

Aos domingos era o homem maravilhoso, já acordava cantando, enchia a casa de música colocando na vitrola discos de tango e músicas dos anos 40 e 50.

Me recordo dele dando comida para os passarinhos…as inúmeras gaiolas penduradas em ambas as paredes do corredor, cantando. As aves que passavam a semana triste nesse dia cantavam e saracoteavam com imensa alegria pela presença dele.

Ele era muito alegre e brincalhão…nos domingos de calor nos dava banho de mangueira no quintal, quase me matava de tanto fazer cócegas rolando no chão…No final do dia era sagrado o seguinte ritual: Ele se deitava de lado no sofá e eu e meu irmão do meio nos sentávamos em cima dele para assistir aos seriados “A Mulher Biônica” “Os bichos” e “Esquadrão Classe A”. Lembrando disso hoje me espanto em constatar ele era um homem forte, pois agüentava tranquilamente sobre suas costelas e cintura duas crianças que juntas pesavam em torno de cem quilos! Talvez porque fosse descendente de índios, era neto de uma índia da tribo “jenipapo-canindé” do Ceará.

Houve um episódio se um seriado de televisão japonês que me marcou muito pois foi por causa dele que compreendi o que acontecia com meu pai e ao contrario de minha mãe e meus irmãos não fiquei revoltada a ponto de guardar rancor.

Foi um episódio da série Espectroman: Havia um menino que vivia com um monstro gigante chamado MAKARURON. O monstro era muito bonzinho e gostava muito de música. O garotinho tocava uma música assoprando um matinho na boca como se fosse uma gaita e o monstro o seguia todo feliz por campos verdejantes.

Um dia os vilões, os macacos do espaço viram o monstro e jogaram um raio maligno nele para transformá-lo num monstro malvado que o herói.

Makaruron atingido pelo raio se transformou numa fera violenta e raivosa e saiu destruindo a cidade. Infelizmente após lutar muito com Espectroman o monstro terminou morrendo. Em seus minutos finais enquanto agonizava o monstro voltou ao seu estado normal e pôde se despedir de seu amiguinho. Quando me lembro dessas cenas até hoje me emociono e ecoa em minha mente o apelo do garoto “Não morra Makaruron!”.

Depois de assistir a esse episódio da série conclui: “É isso o que acontece com papai; Ele é bonzinho, igual ao Makaruron, só que a bebida igual ao raio dos macacos faz ele se transformar e ficar bravo.”

Graças à série japonesa não recordo de meu pai como o vilão mas sim como o herói da minha infância!

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