COMO DEIXAR DE SER GORDA E SE TORNAR UMA MAGRA

Eu fui gorda desde a infância até o início da vida adulta. Pertenço a uma família de gordos. Mas hoje sou considerada uma pessoa magra (se tiver alguma dúvida veja as páginas de fotos) como isso aconteceu? Vou contar agora:
Aos quatorze anos, depois de passar vergonha nas lojas de roupas sendo humilhada pelas vendedoras magras e as outras magras nos provadores, eu, finalmente , resolvi que me tornaria uma mulher magra.

gordinha como a mãe
gordinha como a mãe
como a maioria das gordinhas eu era a queridinha do papai
como a maioria das gordinhas eu era a queridinha do papai

Como uma pessoa inteligente e mentalmente saudável eu já sabia que jamais seria magra como as modelos e atrizes da televisão, meus seios grandes jamais diminuiriam, o baixo abdômen (a parte debaixo do umbigo) jamais seria chapado, as coxas jamais ficariam finas (as pernas nunca ficariam afastadas), os joelhos sempre teriam aquele “bolinho” do lado e o rosto sempre seria arredondado com aspecto pueril (malditas bochechas).
Esses defeitos só seriam resolvidos com cirurgia plástica, eu sabia disso, por isso não caí na onda da anorexia.
Pois é, os felizes mortais que não se preocupam com o próprio peso e sim com o dos outros, não entendem porque uma pessoa se torna anoréxica. Essa é a explicação: a pessoa mesmo depois de magra fica tentando se livrar dos malditos resquícios do seu antigo corpo gordo – certa vez vi na tv uma moça que mesmo depois de estar uma caveira de menos de quarenta quilos, internada no hospital, sem conseguir andar direito de tão fraca, não conseguia vestir uma calça jeans número 36, só entrava a número 38, ou seja, uma merda! Tanta fome passada à toa, a coitada não conseguiu vencer a genética, não conseguiu acabar com os seus quadris gordos! – Outro fator importante: Se voltar a comer normalmente, volta para o tipo físico original em pouco tempo. É muito difícil acertar a medida certa do quanto comer para manter um peso muito baixo, ou seja, se manter magérrima, como uma top model internacional, quando não se nasceu com predisposição genética para isso.
Quando vencer a genética e/ou destruir os resquícios do corpo antigo, do corpo gordo, se torna uma obsessão, a pessoa se torna anoréxica ou viciada em cirurgias plásticas. Dois vícios, duas doenças mentais que são como o câncer, todo mundo diz que tem cura, mas na verdade só tem tratamento e sempre se sabe que um dia vai voltar e geralmente de uma forma mais agressiva.
De bulimia eu quase sofri. Quase, fui salva pela atenção familiar, coisa da qual a maioria das crianças e adolescentes de hoje em dia não podem contar, (porque os pais ou trabalham demais ou os enfia em tantos cursos, tantas escolas para que eles passem a maior parte do dia ocupados como eles e se tornem pessoas bem sucedidas financeiramente para cuidarem bem deles na velhice, por exemplo). Foi assim: eu estava tentando vomitar no banheiro depois do jantar porque havia comido dois pedaços de rocambole recheado com doce de leite, já havia colocado todo o cabo de uma escova de dente na boca, vinha a ânsia, mas o vomito não vinha. Meu pai ouviu os sons da ânsia e bateu na porta “Marzia, o que tá acontecendo? Tá passando mal, o que você tá sentindo?”. E assim foi por água abaixo a minha chance de me tornar bulímica. Tive muita sorte.
Enfim resolvi pedir ao meu pai que me levasse ao médico com o qual ele se tratava da diabetes, o respeitado doutor Ruggero Graff, famoso em casa por seu “rrregime rrrigorozzo”, ( era como ele falava com seu sotaque paulistano italianado).
Doutor Ruggero me passou um regime rigoroso e também remédios (sim, não dá pra lutar contra a genética e os maus hábitos sem a ajuda de remédios).
Quando veio a era das vacas magras, não pude mais me consultar com o doutor Graff e então fiquei por minha própria conta. Aí veio o efeito sanfona – confesso, algumas dietas malucas- , a eficiente dieta dos pontos, a leitura de muitos relatos de gordas em situação pior do que a minha nas revistas e finalmente a tomada de consciência: Se quisesse realmente ser magra teria que seguir uma vida completamente diferente das outras pessoas.
O que realmente me fez tomar essa consciência foi ouvir das pessoas que quanto mais velho, mais gordo se fica e ouvir de um médico do postinho de saúde o seguinte: “Se sua família é de gente gorda você vai ser gorda pra sempre. Pare com essa frescura!” É claro que eu não aceitaria o prognóstico de um profissional de saúde fracassado, e assim, eu decidi seguir uma vida diferente do que “o destino” havia reservado pra mim, decidi deixar de ser a “gordinha bonitinha”.
Os fins justificam os meios, já dizia Maquiável, e para deixar de ser gorda e se tornar magra, ou seja, mudar de identidade, de tipo físico, essa é uma regra fundamental. Assim sendo, tive que passar a comer pouco ( a quantidade que cabe num prato de sobremesa ou xícara de chá) e me abster para todo o sempre de bebidas alcoólicas, todos os tipos de carnes, pílulas anticoncepcionais e do jantar.
Não consumir bebidas alcoólicas afasta as pessoas de você,( a não ser que seja evangélico) dificulta muito para fazer amizades; não comer carne, diminui o número de convites que você receberá para reuniões sociais,( a não ser que você encontre um grupo de amigos vegetarianos que sempre te criticarão por ter optado deixar de comer animais por motivos diferentes dos deles); não tomar anticoncepcional vai afastar os homens ruins de cama (os coitados não conseguem usar camisinha), se por acaso se apaixonar por um, vai levar pé na bunda mesmo e sem nem saber porque; não poder jantar é muito ruim pra quem trabalha a noite. Mas os fins justificam os meios e quais são os fins?
A maravilha de poder vestir todas as roupas que sempre quis vestir; de poder se admirar no espelho; de poder subir vários lances de escada,correr, pular e dançar sem ficar derrotada; exibir a todos aqueles que riam de você ou que disseram que você era “bonita de rosto”, aqueles que disseram que você nunca conseguiria, aqueles que tinham pena de você, aqueles que eram magros e belos e hoje são mais gordos que você…um corpo magro que fica bem em qualquer roupa, ou seja, o símbolo da sua VITÓRIA.
Vitória não só sobre os seus maus hábitos e a má educação alimentar que seus pais te deram, a sua vitória sobre a genética, sobre a sociedade e suas imposições, a sua vitória sobre o destino.
Eu obtive essa vitória e estou realizada e muito feliz com isso, feliz comigo mesma, me considero uma vitoriosa e tenho muito orgulho disso.

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