STANISLAVSKY

– Já que a imaginação tem papel tão importante no trabalho do ator – perguntou Paulo, um tanto encabulado – o que é que ele pode fazer quando carece dela?

– Terá de desenvolvê-la – respondeu o Diretor – ou então desistir do teatro . De outro modo, cairá nas mãos de diretores que  compensarão a sua deficiência com as suas próprias imaginações, fazendo dele um joguete. Não seria melhor desenvolver uma imaginação sua mesmo? ( A PREPARAÇÃO DO ATOR pag 84)

Há alguns dias participei de um Workshop onde a professora (profissional formada em escola de teatro) fez um comentário infeliz sobre o método Stanislavsky, foi mais ou menos assim: “…Aquela história que Stanislavsky disse que o ator tem que lembrar da morte do pai pra poder chorar é uma bobagem. Se toda vez que tiver que chorar o ator tiver que lembrar da morte do pai, tá fudido, porque não vai lembrar mesmo!”

Mesmo não sendo a primeira vez que escuto alguém falar um disparate correlato, eu como uma artista que estuda e que leu e compreendeu os livros de Stanislavsky, fiquei estarrecida.

Quando me foi dada a oportunidade de falar resolvi me manifestar sobre a questão e expliquei da maneira mais inteligível que pude que o uso da memória emotiva (lembranças emocionantes da vida) pelo ator para ajudar a “sentir” a emoção vivida pelo personagem é um recurso que deve ser usado quando o ator está construindo o seu personagem, quando está estudando o texto, ou seja na primeira fase do seu trabalho, antes dos ensaios. Na segunda fase, nos ensaios, isso é exercitado e então quando chega a fase das apresentações a coisa já está orgânica, o ator se emociona naturalmente, vive as emoções do personagem sem precisar de recurso algum.

Em nenhum dos livros de Stanislavsky está escrito que o ator tem que se lembrar de algum momento triste de sua vida em todas as vezes que tiver que chorar em cena. O uso da memória emotiva como recurso para alcançar o estado emotivo do personagem é indicado para os casos em que o personagem vive uma experiência da qual o ator nunca viveu, como por exemplo: a morte de um filho; para o ator que não tem filhos pode ser complicado imaginar essa dor e a lembrança de um momento de sua vida onde tenha sofrido uma grande perda pode ajudar.

Os grandes atores, aqueles que realmente nasceram pro negócio, nunca se utilizam desse recurso, nem mesmo quando crianças, os atores mirins.

Veja o que está escrito sobre isso no livro “A PREPARAÇÃO DO ATOR” (pag 78):

Entretanto, quando se utilizarem deste terceiro princípio de atuação, esqueçam os seus sentimentos, porque eles, na maior parte, são de origem subconsciente e não estão sujeitos a comandos diretos .Dirijam toda a sua atenção para as “circunstâncias dadas”. Elas estão sempre ao nosso alcance.

Tenho que reconhecer que a professora foi extremamente generosa permitindo que eu me manifestasse. Aproveitei para expor a minha teoria sobre o porque do método Stanislavsky ser mal compreendido por tanta gente, trata-se do seguinte:

São poucas as pessoas que gostam de ler no nosso país, principalmente entre aqueles que encrencam de serem artistas; os livros de Stanislavsky, são livros “grossos” e ainda por cima são três! (sem contar Minha Vida na Arte). Para piorar um polaco chamado Eugênio Kusnet escreveu dois livros fazendo uma espécie de resumo do conhecimento técnico expresso na trilogia do mestre russo;  livros “fininhos”.

Mas a questão é que o mais importante conhecimento passado nos livros de Stanislavsky não é os ensinamentos técnicos (ministrados pelo  personagem Tortsov). Os livros foram escritos em forma de ficção, de romance; os ensinamentos ali são passados por meio da história. Os personagens, os estudantes da escola de teatro são arquétipos; em todo curso, oficina ou grupo de teatro encontra-se cada um deles: sempre tem um Gricha, o exibido; um Leão, pau-pra-toda-obra; uma Sônia, a bonitona; uma Maria, a tímida talentosa, etc… o único que é difícil de encontrar é o Cóstia, o esforçado, estudioso; o exemplo que todos nós deveríamos seguir (até mesmo os que nasceram pra coisa!).

Quando eu disse isso a professora falou: “Ah é? Eu não sei, eu não li os livros.”

Ela não leu os livros…sem comentários.

Naquele momento passou pela minha cabeça a grande ironia da vida: Se hoje existe escolas, cursos,oficinas de teatro é graças a esse livro, porque Stanislavsky foi o primeiro a metodificar a arte da interpretação, ou seja, foi aquele que inventou um jeito de ensinar aquilo com que a pessoa tem que nascer sabendo. Antes da popularização de seu livro não existia “escola de atores”, ensino de “arte dramática”, essa coisa de que qualquer um pode ser ator basta aprender certas técnicas. Enfim, aquela professora falou algo negativo sobre aquele que propiciou à ela aquele trabalho, aquela forma de “ganha-pão”.

Caros atores iniciantes, professores não são “donos da verdade”, pense nisso principalmente se você mora numa cidade do interior e fica impressionado com os profissionais que vêm das capitais (principalmente de São Paulo e Rio); não acreditem em tudo o que eles dizem, duvide, questione e o mais importante : LEIA! LEIA MUITO! Não permita que outros pensem por você, que digam o que você deve pensar. Lembre-se sempre que todo artista é um ser livre, alguém que pensa, que sente… o artista é por natureza um questionador.“PENSO, LOGO, EXISTO.”

Leiam “A PREPARAÇÃO DO ATOR” , “A CONSTRUÇÃO DA PERSONAGEM” e a “CRIAÇÃO DE UM PAPEL”  de Constantin Stanislavsky e tirem suas próprias conclusões.

_ Já que a imaginação tem papel tão importante no trabalho do ator _ perguntou Paulo, um tanto encabulado _ o que é que ele pode fazer quando carece dela?

_ Terá de desenvolvê-la _ respondeu o Diretor _ ou então desistir do teatro . De outro modo, cairá nas mãos de diretores que  compensarão a sua deficiência com as suas próprias imaginações, fazendo dele um joguete. Não seria melhor desenvolver uma imaginação sua mesmo? ( A PREPARAÇÃO DO ATOR pag 84)

PS: Leiam também “MINHA VIDA NA ARTE” de Stanislavsky e “ATOR E MÉTODO” de Kusnet.

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