SHAKESPEARE

No último post eu escrevi aconselhando os atores iniciantes a serem questionadores e  não acreditarem piamente em tudo o que dizem os professores, porque “eles” não são donos da verdade, em especial no caso de quem vive no interior e recebe profissionais das capitais (Rio e São Paulo principalmente) como se fossem reis.

Neste post trago mais um exemplo de como vale a pena questionar, só que desta vez o personagem ilustre é Shakespeare.

A história é a seguinte: A atriz Narjara Tureta distribui para os alunos de uma oficina de interpretação para cinema que ministrou em minha cidade há muito tempo atrás, um texto chamado “VIDA” que ela disse ter lhe sido presenteado pelo ator Antônio Petrim, de cuja autoria seria de Shakespeare (no próprio texto impresso constava o nome do Bardo como autor).

O texto que esta bastante viralizado na Internet entitulado por outros nomes como “Depois de algum tempo”, “Um dia você aprende”, “Depois de algum tempo a gente aprende”, “O que aprendemos da vida”, “O que a vida ensina”, etc… é esse:

“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.

E você prende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.

E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes, não são promessas.

E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança…”

Um pequeno trecho do belo texto que não foi escrito por Shakespeare, suspeita-se que possa ser a “versão brasileira”(uma tradução livre) de um poema chamado “After a While” do livro “Comes the Dawn” de uma escritora estrangeira de livros de auto-ajuda chamada Veronica Shoffstall, isso segundo a internet, outra fonte também não muito confiável.

Pesquisando, eu encontrei o mesmo texto escrito de uma maneira um pouco diferente e com o titulo “Aprenderás”  no livro “A Arte de Lidar com Pessoas” de Jamil Albuquerque, onde consta que a autoria é de Jorge Luis Borges:

“Depois de algum tempo aprenderás a sutil diferença entre estender uma mão e conquistar uma alma, e aprenderás que amar não significa apoiar-se,e que companhia nem sempre significa segurança.

Começarás a aprender que beijos não são contratos, nem os presentes são promessas…

Começarás a aceitar tuas derrotas com a cabeça erguida e o olhar decidido, com a graça de uma mulher e não com a tristeza de um menino…”

 

E agora, de quem será esse texto? De Veronica Shoffstall ou de José Luís Borges? Talvez de nenhum dos dois,pois em alguns locais na internet o texto tem o acréscimo de mais frases que não constam nas versões desses autores. Mas isso não importa muito, o importante é que não pertence a Shakespeare.

Muitos suspeitam que William Shakespeare não seja o autor de todas as obras atribuidas a ele, que o Bardo teria se apropriado de obras alheias (por ser o primeiro a registrá-las), outros suspeitam que ele sequer tenha existido, que seu nome seja um “nome fantasia” criado para dar um autor para excelentes obras de autores desconhecidos.

Essas suspeitas podem ser coerentes já que em pleno século 21, atribuem ao Bardo a autoria de um texto que não foi escrito por ele.

Dessa vez estendo o conselho para todos, aspirantes a carreira de ator e todos os demais: QUESTIONEM! Não acreditem em tudo o que ouvem ou lêem.

Para encerrar um texto que realmente pertence a Shakespeare:

SONETO 55

Nem mármore, nem áureos monumentos de reis hão de durar mais que esta rima,

E sempre hás de brilhar nestes acentos

Do que na pedra, pois o tempo à lima.

Pode a estátua na guerra ser tombada

E  a cantaria o vil motim destrua;

Nem fogo ou Marte apagará com a espada

Vivo registro da memória tua.

Há de seguir teu passo sobranceiro

Vencendo a morte e as legiões do olvido,

E os pósteros, no Juízo derradeiro,

Hão de a este louvor prestar ouvido.

Pois até a sentença que levantes,

Vives aqui e no lábio dos amantes.

 


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