TORPOR E O DIREITO AO SONHO

“Os sonhos fazem os tímidos terem golpes de ousadia e os derrotados serem construtores de oportunidades” – Augusto Cury

Quando era criança e me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse eu respondia: “Eu quero ser cineasta.” Os ignorantes perguntavam: “O que é isso? Eu explicava e então eles riam e assim como os de inteligência mediana pensavam: “Quando ela tiver uns quinze anos arruma barriga de alguém, começa a trabalhar e esquece essa bobagem.”

Na adolescência uma professora certa vez perguntou o que eu queria fazer da vida, respondi o mesmo e então ela disse: “Esqueça, isso é coisa pra filho de rico. Você é filha de banqueiro por acaso?”

Enfim, eu desisti do meu sonho, enterrei-o no solo da minha memória e me tornei mais uma pessoa revoltada, só que ao contrário da maioria dos revoltados eu não dei o prazer a ninguém de ver eu me autodestruir; muito pelo contrario (nem bebida alcoólica eu consumo).

Sonhos nunca morrem, a gente pode mantê-los enterrados por uma vida inteira, mas é só revolver um pouco a terra que eles estarão lá brilhando como sempre.

Esse ano tive a oportunidade de sentir um pouco do gostinho do que seria ter realizado o meu sonho. Tive o meu momento Stallone: escrever um roteiro, atuar e dirigir.

Graças ao NAPA Núcleo de Apoio, Pesquisa em Audiovisual nascido na sede regional das OFICINAS CULTURAIS DO ESTADO DE SP, Altino Bondesan.

O filme é o curta TORPOR. Amador, independente, pobre em recursos técnicos e financeiros, mas rico em criatividade, força de vontade e talento de todos os que contribuíram na sua realização.

Tudo começou no módulo 4 da oficina de audiovisual ministrada por Auira Ariak que deu origem ao NAPA. O tema do modulo era roteiro. Um colega chamado Douglas Baquião chegou com uma ideia interessante na aula cuja a tarefa era criar a storyline; a ideia já era quase um argumento: “Uma serie de imagens mostrando sensações, sentimentos diversos e no final olhos se abrem e a pessoa fala: ?Preciso fumar mais um?” – disse ele.

Foi feita uma votação no grupinho após cinco pessoas terem apresentado suas ideias. A de Douglas foi a mais votada. Eu então escrevi o roteiro. Isso foi em 2011.

Em maio desse, no modulo 5 da oficina cujo o tema era produção, eu que não estava podendo acompanhar as aulas recebi um e-mail com a boa noticia :”Na próxima aula inicio das gravações de Torpor.” No corpo do mail uma intimação carinhosa de Auira para que eu comparecesse para interpretar a personagem “namorada” e a informação “fulano fará o Paulo”.

Na hora pensei: “esse cara não vai nem aparecer”; o sujeito havia ficado chateado na oficina anterior porque a ideia dele não fora a escolhida e eu já conhecia bem a personalidade dele.

Sai da sala da INTERNET LIVRE do SESC com a cabeça a mil por hora, planejando como faria para encontrar alguém para interpretar Paulo o personagem principal. Era sexta feira e aula, o inicio das gravações era na próxima sexta feira, ou seja, eu tinha apenas uma semana para encontrar um rapaz sem ego de ator, pois o filme era praticamente todo em câmera subjetiva (o ponto de vista do personagem) e alguém que gostasse de aparecer não se sentiria satisfeito; mas tinha que ser alguém jovem e com olhos marcantes, expressivos para a cena final.

Quando cheguei no hall de entrada, avistei Daniel Tupinambá: jovem, bonito e dono de um olhar triste que seria perfeito para o personagem. Havia conhecido ele em janeiro em uma oficina ali mesmo no SESC, havíamos conversado poucas vezes, mas não pensei duas vezes, o chamei, ele que já estava saindo quase sumindo do meu campo de visão, atendeu, eu corri em sua direção e começamos a conversar.

No dia da gravação a constatação, o fulano realmente não apareceu, mas Daniel havia topado e gravamos logo de cara duas das cenas mais difíceis. Daniel fez o melhor que podia e se saiu bem para quem nunca havia atuado na vida.

Outro novato que se saiu muito bem foi o Guilherme Gaioso que havia caído de pára-quedas no meio da oficina; era seu primeiro dia de aula e eu virei pra ele e perguntei se já havia pegado em uma câmera, ele disse que sim, então eu já deleguei:”Você será nosso câmera ta legal?”. Ele tinha praticamente a mesma idade e altura de Daniel o que era ideal para fazer as filmagens no plano do ponto de vista do personagem: a altura faria com que ele pudesse enquadrar na altura dos olhos do ator e a idade porque facilitaria o entrosamento, a empatia entre cinegrafista e ator. Ele topou e ele e Daniel formaram uma dupla dinâmica.

As gravações foram acontecendo no decorrer das semanas e foram surgindo mais pessoas para ajudar e assim terminou fechando-se uma equipe; todos focados no mesmo objetivo, todos fazendo o melhor que podiam fazer.

O roteiro foi seguido quase a risca, salvo sob duas imagens na cena do ponto do ônibus que a equipe gostou e achou bacana anexar e a mudança de horário de dia para noite na penúltima cena e de um parque para uma praça em outras duas.

Enfim, o filme ficou pronto, com trilha sonora e tudo o mais.

A galera tava tão entrosada e com tanto gás que emendou na gravação de uma adaptação de outro roteiro criado em uma oficina de roteiro ministrada por oura professora lá mesmo na Atino Bondesan; e assim surgiu o curta CORPO SECO que esta tendo sua trilha sonora editada.

TORPOR esta no YOU TUBE em dois canais em duas versões com trilhas sonoras diferentes.

TORPOR fala justamente sobre o “direito ao sonho”: quando o sonho não se realiza e a decepção o deixa enterrado, só nos restam as lembranças que formam o solo da memória que o cobre. A revolta leva a pessoa a se autodestruir se entorpecendo para tentar vencer a decepção tendo sensações fugazes de prazer. E é’ nos momentos de torpor que as lembranças surgem, as boas e as ruins, elas são a terra do solo da memória.

O direito ao sonho deveria constar nos estatutos da lei, constituição, na declaração universal dos direitos humanos. Todos deveriam ter o direito de sonhar e desmerecer os sonhos de uma criança, de um jovem deveria ser considerado um crime…isso num mundo perfeito e justo, mas o nosso mundo é cruel.

Fica a dica: Faça como eu, desenterre só um pouquinho o seu sonho, ele pode não se realizar do jeito que você sempre almejou, mas você pode sentir uma gota do prazer que seria realizá-lo, e isso te fará sentir-se mais vivo(a).

MEUS PROFUNDOS E SINCEROS AGRADECIMENTOS A: AUIRA ARIAK, DANIEL TUPINAMBA, GUILHERME GAIOSO, DOUGLAS BAQUIAO, PATRICIA GARCIA, DANILO MORALES, CLAUDIA SAVASTANO, JULIA ANDRADE E WAGNER MOLOCH por terem me ajudado a viver um intenso e prazeroso momento de torpor, gerado pelo sentimento de realização de um sonho!

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