Contadores de Verso

Contadores de verso eram pessoas que costumavam aparecer nas estações, nos armazéns e nas fazendas de vilarejos distantes e cidades do interior do Ceará.
Uma mulher ou um homem sozinho, que surgia pedindo comida e abrigo por uma noite ou duas e que estavam sempre vindo de viagem, de partida para algum lugar.
Durante a estada, o tempo que passavam de pouso, eles contavam histórias em versos rimados de forma dramática e bem teatral e muitas vezes de forma improvisada criando os acontecimentos no calor do momento. Eram dinâmicos e criativos transformando-se em diversos personagens tal e qual Chico Anysio, Tom Cavalcante e os inúmeros artistas que hoje se enquadram na categoria de comediantes de Stand Up Comedy.
Suas histórias tinham como protagonistas  : João Grilo e Chico, Lampião , Padre Cícero,  o Diabo,  Jesus Cristo e outros. Narravam história Bíblicas que não constam na Bíblia, sobre, por exemplo, a infância e juventude de Jesus (que segundo eles teria vivido ali no Ceará).

Eles não se apresentavam como artistas e sim como pessoas comuns mas, como estes, roubavam a atenção e a admiração do público.
Sempre indo ou vindo com pressa de algum lugar; algumas vezes deixavam de recordação um resumo de algumas das histórias contadas escritas em versos rimados a mão em uma folha de papel qualquer.
Um belo dia, pessoas de visão comercial se apossaram desses escritos e resolveram escrever as mesmas histórias utilizando um estilo de literatura européia surgida no período medieval, imprimindo as mesmas em folhetos no estilo do “cordão” de Portugal. Esses folhetos passaram a serem vendidos nas feiras. Durante muito tempo estes folhetos foram chamados de “verso” pelo povo e mais tarde também de romanço ou rumanço por causa das muitas histórias de amor e tragédias.
Cantadores e repentistas afeiçoados à arte de fazer rimas passaram a se interessar em escrever e vender seus próprios folhetos.

Logo em seguida surgiram as editoras e então os folhetos passaram a serem impressos em gráficas e os títulos eram registrados, assim os folhetos se tornaram o produto do mercado literário denominado Cordel. Surgiram então os “folheteiros” ou “maleteiros” pessoas contratadas pelas editoras para venderem os folhetos nas feiras.
Com o surgimento do produto “folheto”, “cordel”, os contadores de verso foram desaparecendo e hoje não existe nenhum registro deles na história. A única coisa que eles deixaram como legado foram os personagens fantásticos e suas historias incríveis que até hoje rendem muitas outras histórias.
Eles somente existiram e existem para quem teve a honra de vê-los contando suas histórias na soleira, no terreiro ou na varanda, numa noite enluarada à luz de candieiro, numa noite de festa ou numa tarde preguiçosa regada à aluá e bolinho de puba em forma de “boinho”, “cabinha” ,  estrela,etc.

Inspirada nessa lenda dos contadores de verso, contada pelos meus pais e minha avó surgiu a peça Filó + Bastião.

crato

estação de trem - Crato Ceará.
estação de trem – Crato Ceará.

estaçao

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