PRIMEIRO AMOR

Há poucos dias atrás, estava numa reunião e o responsável por conduzir a sessão lançou a seguinte pergunta à todos os presentes: “Quem se lembra da sua primeira paixão? Aquela primeira de todas, lá na infância…”

E não é que a minha cachola pôs-se a  fuçar nos arquivos velhos e eu me lembrei do meu primeiro amor? Aconteceu – pasmem – na época do prézinho, foi por um menino chamado Érik .

Bem, vou contar a história: Um dia, do nada, depois das aulas já terem se iniciado há algum tempo, surgiu na escolinha o garoto Érik; um belo menino magrinho, de pele bem branquinha, algumas sardas sobre o narizinho afilado e um cabelo lisinho e bem pretinho. Ele havia vindo de outra escola e não se enturmou muito com os garotos, ficava meio isolado, brincando sozinho, assim como eu. Nessa coisa de ficarmos sozinhos no mundo da lua, terminamos nos trombando e aí iniciamos a nossa amizade. Eu não me lembro de quase nada dos nossos momentos juntos, sei que ficávamos conversando sobre televisão, fazendo desenhos e lendo -nós éramos os únicos que já sabíamos ler na escolinha – mas teve um momento específico que ficou registrado na minha memória e acho que para sempre:

Certo dia na hora de escovar os dentes depois do lanchinho do recreio – lanchávamos juntos – eu e ele, atrasados como sempre, quando todos já haviam voltado para as salas, fomos para o banheiro escovar os dentes juntos, na mesma pia (a escola funcionava em uma casa grande e não em um prédio construído para ser escola, como muitas escolas infantis de bairro) e então aconteceu o momento que fez o meu coração palpitar… talvez você que está lendo isso, ache nojento, mas pra mim foi romântico: Bem, foi assim, estávamos escovando os dentes e na hora de cuspir a pasta percebemos que nós dois estávamos com o nariz escorrendo (sofríamos de bronquite), então ele abaixou o rosto na pia de forma que a coriza ficasse “pendurada”, propôs que eu fizesse o mesmo e eu fiz, logo em seguida com os dedinhos em forma de tesoura ele disse: “Olha a tesourinha!” e aí “cortou” a minha coriza e a dele. Eu ri da brincadeira e lavei o nariz, então ele desceu o rosto de novo, o nariz escorreu e ele disse: “Agora é a sua vez!”… eu morria de nojo de abraçar e beijar, quanto mais colocar a mão numa coisa nojenta e ainda por cima de outra pessoa… mas aí ele lançou aquele olhar e eu fiz a tesourinha com os dedinhos e…tick! Caímos na risada e eu senti como se tivesse feito uma das coisas proibidas, “impróprias”, como dizia meu pai, coisas que homens e mulheres faziam às escondidas. “Você fica bonita quando dá risada desse jeito!”, disse ele e então a minha carinha pegou fogo… ficamos olhando um para o outro e depois nos olhamos no espelho…mas aí uma das “tias” bateu na porta do banheiro e acabou com o nosso idílio. Limpamos o nariz correndo, lavando com água, secamos bem, como se estivéssemos tentando esconder a prova de um crime e voltamos pra sala.

A cada momento durante a aula em que eu olhava pra ele ou ele olhava pra mim, ele fazia a tesourinha com os dedos e eu segurava o riso, para a professora não dar bronca; e os colegas não entenderam nada…era um segredinho só nosso.

Na semana seguinte, não tenho muita certeza, Érik desapareceu. Perguntei para as professoras e as malas sem alça não me respondiam. Estava chegando o dia da festa junina, eu havia planejado dançar a quadrilha com ele e quando fora comprar a roupa de caipirinha com minha mãe, havia escolhido um vestido lindo de flanela cor de vinho e mangas longas e também uma meia calça azul marinho a cor dos detalhes do desenho xadrez do vestido, para ficar bem bonita ao lado dele. No dia do primeiro ensaio colocaram como meu par um menino magricela loiro, branco como um morto-vivo e então eu perguntei: “Cadê o Erik?” e finalmente a professora respondeu que ele havia mudado de escola para uma escola mais cara e que “não voltaria mais”… senti o chão se abrir sobre os meus pés… Pedi para ir no banheiro, porque jamais poderia deixar que os outros me vissem vulnerável, chorei um pouco, afinal fui treinada por um pai violento a segurar o choro e voltei com o semblante impassível de sempre para o ensaio da quadrilha. Ensaiei com a maior má vontade do mundo, do mesmo jeito que fazia quando ia pular corda ou fazer aqueles outros exercícios idiotas com bolas -que infelizmente tiver que ser obrigada a fazer de novo no teatro – fui até cruel com o pobre do garotinho que foi meu parceiro (na semana seguinte eu aliviei com ele, coitadinho, era muito bonzinho).

Quando cheguei em casa, à noite, na hora de dormir, depois que me certifiquei que meu pai , estava dormindo – ele não admitia o choro, se flagrasse chorando, tomava uma surra –  desabei, chorei horrores, mas baixinho, alí, debaixo das cobertas, escondidinha, pra ninguém ver.

Eu nunca mais voltei a ver o Érik, a casa onde funcionava a escola, hoje em dia, nem existe mais, foi demolida pra fazerem um prédio no lugar. Eu não tenho a menor ideia de quanto tempo ele passou na escola, se foram meses ou apenas quinze dias – quando somos crianças a contagem do tempo ocorre de forma diferente na nossa mente – só sei que foi tempo o suficiente para se tornar inesquecível.

primeiro amor

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