Adeus Mauricinho!

Na noite deste último domingo dia 16, perdi meu irmão Maurizio num triste acidente na estrada Régis Bittencourt. O carro onde ele estava quebrou, a estrada no trecho onde estava não tem acostamento, ele entrou debaixo para consertar, surgiu uma carreta, bateu no carro e…

O irmão do meio sempre foi o mais alegre e mais popular, também o mais ciumento (como a maioria dos “irmãos do meio”) e o mais rebelde. Homossexual desde a mais tenra infância, também sempre se envolveu com mulheres e foram elas que mais lhe devotaram amor, paixão e dedicação.

Na infância e adolescência mostrou um talento incrível para o desenho, mas foi desmotivado pelas ignorantes professoras da escola pública, os coleguinhas de baixo intelecto e meus pais. Brincou com seus carrinhos, bonecos e os jogos de rua até os 15 anos. Tinha verdadeira paixão por Dinossauros e Dragões. Também sempre gostou muito de animais.

No auge da juventude, era o rei das pistas de dança, arrasava em todos os lugares desde  as danceterias/baladas até os bailes da saudade. Dominava quase todos os ritmos e aprendia muito rápido, seu gingado e energia deixavam todos hipnotizados.

Seus grandes defeitos eram a maldição da nossa família:”o pavio curto” (pouca paciência e falta de controle sobre a ira nos momentos de nervoso) e a tendência para os vícios. Bebidas, drogas e sexo sempre foram o flagelo da nossa família. Sóbrios e de bom humor somos pessoas incríveis, entorpecidos e de mau-humor somos demônios agressivos.

Durante anos da minha infância eu o considerava uma verdadeira peste, sofria muito com suas traquinagens e com seus acessos de ciúmes, hoje ao lembrar de certos acontecimentos acho engraçado. Uma das histórias mais engraçadas foi quando um dia ao chegar da escola encontrei a porta do meu quarto fechada e nesta estava afixada com durex uma folha de caderno onde estava escrito: “cuidado! Quarentena. EPIDEMIA DE CABEÇAPRABAIXITE”. Quando abri a porta do quarto todas as minhas bonecas, bichinhos e bonequinhos de plástico de cabeça pra baixo! E olha que eram muitos! Porque meu pai trabalhava com sucata, era dono de um depósito de materiais recicláveis cujo o forte era o comércio de aparas de papel e plástico e eu costumava “resgatar” bonecas e outros brinquedos que vinham no meio do lixo reciclável. Mauricinho (seu apelido entre nós da família)  já tinha a mania de fazer isso: toda vez que eu estava brincando com minhas bonecas ele chegava de soslaio e virava uma boneca de cabeça pra baixo enquanto eu estava entretida arrumando alguma coisa. Dava uma raiva danada! A boneca tava sentadinha bonitinha, eu virava as costas por um segundo para mexer com a outra e quando olhava de novo, lá estava a boneca de cabeça pra baixo! Somente depois de adulta que descobri que crianças e jovens (no caso ele já era adolescente) fazem esse tipo de coisa para chamar a atenção principalmente quando a vítima é alguém pouco sociável que gosta de ficar sozinho e eu, não nego, sou esse tipo de gente.

A coisa que Mauricinho mais gostava de fazer era viajar. Como amava nadar, coisa que fazia muito bem, seus lugares preferidos eram lugares onde houvesse uma boa água para se divertir: Praia, piscina, represas, rios, açudes, cachoeiras… Curtia tanto o litoral quanto o campo com tanto que houvesse um bom lugar para nadar. Fizemos deliciosos passeios juntos acompanhados de suas várias namoradas.

Sua grande vocação era dirigir, dirigia tudo, sua habilitação era categoria E e ainda tinha formação de instrutor de direção de veículos!( profissão que exerceu por um bom tempo, mas não prosseguiu por causa do pavio curto).

Era carreteiro, sua vida era a “vida de viajante” cantada por Luís Gonzaga:

 Minha vida é andar por este país
Pra ver se um dia descanso feliz
Guardando as recordações
Das terras onde passei…

No dia em que morreu havia passado o dia inteiro em uma linda chácara, bebendo, comendo, brincando e tomando banho de piscina. Podemos dizer que chegou o dia dele – o dia de que fala a música-  e ele “DESCANSOU FELIZ”.

marzinha 4
O menino menorzinho é o Mauricinho
sempre alegre
sempre alegre
Nadava como um peixe em qualquer lugar!
Nadava como um peixe…
... em qualquer lugar.
… em qualquer lugar.
Brincalhão: nunca perdeu o jeito de menino!
Brincalhão: nunca perdeu o jeito de menino!
Praia e sol: a cara dele!
Praia e sol: a cara dele!
ria fácil e fazia os outros rirem muito também, com suas imitações e histórias!
ria fácil e fazia os outros rirem muito também, com suas imitações e histórias!
Sim, ele "se achava"... mas seria isso um defeito? Nele não.
Sim, ele “se achava”… mas seria isso um defeito? Nele não.
O olhar marcante que despertou muitas paixões.
O olhar marcante que despertou muitas paixões.
Morreu aonde mais gostava de estar: na estrada.
Morreu aonde mais gostava de estar: na estrada.

Um pensamento sobre “Adeus Mauricinho!

  1. Que bela homenagem, Márcia! A energia dele ainda está presente através das suas lembranças. Agradecidos todos devemos ser por ter a oportunidade de passar por este mundo, vivenciar experiencias próprias, mas, sobretudo, trocar experiencias com nossos próximos. E chegará também o nosso dia de partir, por isso façamos o melhor! Beijo na alma!

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