MEDO E RESPEITO

You can’t hurt me now
I got away from you, I never thought I would
You can’t make me cry, you once had the power
I never felt so good about myself

Você não pode me machucar agora
Eu me afastei de você, eu nunca pensei que eu conseguiria
Você não pode me fazer chorar, você já teve o poder
Nunca me senti tão bem comigo mesma

música Oh Father da Madonna

Se você que está lendo isso agora sente medo de alguém, vive com um medo intenso e constante dessa pessoa, eu lhe digo que UM DIA ISSO VAI ACABAR, porque eu vivi isso. EU NUNCA TIVE CORAGEM DE DIZER QUE EU SENTIA MEDO. Hoje eu posso dizer, porque o medo acabou.

O PAI

Eu sentia um medo terrível do meu pai, durante toda a minha infância e adolescência eu vivi sob o jugo do medo e do terror. No afã de ter o respeito e também o poder e o controle absoluto sobre a família o meu pai impunha o medo. Meu pai era um ILUMINADO (pessoa amada e admirada por muita gente),  era alegre, brincalhão, charmoso, sexy, bem humorado, corajoso, decidido, destemido, a estrela das reuniões sociais, fumava charuto, bebia e comia de tudo, tinha um estilo próprio de se vestir… possuía uma legião de adoradores e bajuladores, na rua, no trabalho… como toda pessoa agressiva e violenta ele era atraente, possuía aquele magnetismo inexplicável que atrai a tudo e a todos, mas toda a vez que alguma coisa fugia do controle ou não saía conforme o planejado ou imaginado “o diabo se soltava da garrafa”, o lado violento e agressivo surgia com força total.

Ele bebia e bebia muito, para a sociedade pessoas como ele não são consideradas alcoólatras, porque na nossa sociedade hipócrita o indivíduo só é considerado alcoólatra quando deixa de trabalhar para viver apenas em função do álcool e por causa desse pensamento infeliz inúmeras famílias se destroem dia após dia. Ele não era violento por causa do álcool, ele era violento e ponto, o álcool só potencializava a sua agressividade.

Se algum familiar meu estivesse lendo isso diria: “Você nem apanhava dele, quem deveria falar sobre isso é a sua mãe e seus irmãos”… ele dava a seguinte justificativa: “Ela não faz nada de errado, é inteligente demais, tão inteligente que chega a ser perigosa. Eu mando ela párar de chorar e ela pára. Onde já se viu uma ‘mulher’ conseguir fazer isso?” (ele era mulherengo, possuía diversas amantes e minha mãe chorava muito por causa disso, quanto mais ele gritava mandando ela parar, mais ela chorava e apanhava) – comentários que vinham sempre seguidos de risos -talvez tenha sido por essas observações que eu tenha sido poupada de surras mais constantes e violentas, que tenha apanhado muito, mas muito menos que a minha mãe e principalmente que os meus irmãos.

Embora respeitassem e seguissem as ordens do meu pai como soldados ao seu general, quanto mais apanhavam, mais besteiras, mais coisas erradas meus irmãos faziam, era algo impressionante! Quanto mais medo de apanhar mais ousadia e falta de senso crítico para fazer burradas… mais autodestruição.

Quando ficou realmente velho e doente uma luz se acendeu na mente do meu pai, a luz da consciência, e assim ele refletiu sobre todos os erros que havia cometido e resolveu se redimir… comigo. Foi a melhor coisa que ele fez na vida porque assim ele pôde morrer com parte de sua consciência tranquila por ser perdoado por pelo menos uma das pessoas à quem ele impingiu medo. Também eu fui a única pessoa que ficou realmente próxima dele quando ele chegou ao seu fundo do poço. Todos aqueles que o adoravam desapareceram.

O IRMÃO

Meu irmão mais novo, o do meio, foi quem “puxou” a agressividade e violência do meu pai e também, é claro, todo o seu carisma e o seu brilho, era outro iluminado. Sua legião de amigos “puxa-saco” era interminável, a cada novo passo, um novo adorador. Por alguma razão inexplicável, toda vez que ele ficava na pior, no fundo do poço, seja emocionalmente ou financeiramente os seus adoradores desapareciam, estavam sempre muito ocupados. Mas surgiam outros ali mesmo do fundo do poço que o apoiavam e pareciam sempre levá-lo cada vez mais para baixo. Mas ele tinha tanta luz, mas tanta luz que até iluminava o poço fazendo parecer que o buraco não era tão fundo.

Como boa parte dos filhos de alcoólatras, além de alcoólatra o meu irmão era também viciado em drogas, mas de acordo com os padrões da sociedade ele não era nenhuma das duas coisas porque trabalhava, como todos sabemos, a pessoa só é considerada um “doente” , um dependente químico, quando ele deixa de trabalhar e começa a roubar o dinheiro dos outros para sustentar os seu vícios, porque é somente nesse momento que o indivíduo se torna um problema para a sociedade.Quando o indivíduo impõe medo e comete violência somente com a família ele não é visto como um “problema” para a sociedade.

Meu irmão foi o encarregado de me fazer aprender a andar de bicicleta, a dirigir e a nadar. Não é preciso dizer porque hoje eu não faço nenhuma das três coisas, acho que qualquer pessoa inteligente é capaz de imaginar. O curioso é que quando as pessoas o questionavam sobre isso ele respondia: “Não sei, ela dirigia bem pra caralho, um dia enfiou o carro de primeira numa vaguinha estreitinha assim.” – é claro que ele não disse que na ocasião havia ameaçado: “Se você não estacionar ali eu quebro a sua cara no pára brisa e você vai ficar com a cara igualzinha a da Nilza!” (Nilza era a secretária amante fixa do meu pai, ela tinha cicatrizes profundas no rosto devido a um acidente de carro).

Sim, eu confesso, eu enfiava o carro em vagas nas ruas de Jacareí, tão estreitas que dificilmente um homem imaginaria que uma mulher seria capaz de fazer de primeira. É por esses “pequenos milagres” que se operam quando a pessoa frágil está recebendo ordens e ameaças de seu algoz que várias pessoas acreditam que impor pressão e medo sobre os outros é algo extremamente eficaz para se conseguir atingir os mais diversos objetivos e resultados (vários profissionais se utilizam dessa “técnica”: treinadores esportivos; diretores artísticos de teatro, dança, cinema, televisão; executivos do mercado financeiro,etc…). Mas no caso dele, também, eu fui a que menos sofreu com sua agressividade. Outros da família e próximos sofreram bem mais. Ele não era agressivo e violento por causa do pai e nem por causa do álcool e das drogas, ele era agressivo e ponto.

A educação que recebeu e os entorpecentes só faziam potencializar aquilo que ele trazia no DNA. Meu irmão teve a sorte de morrer jovem e não colher todos os frutos do que plantou e do que ainda plantaria, também, felizmente não deixou filhos, não deu continuidade a essa herança genética ruim.

O AMADO

Como geralmente costuma acontecer, as filhas de pais violentos e agressivos tendem a se apaixonarem por homens com características similares a do genitor. Não foi diferente comigo. Como não se apaixonar por um iluminado, inteligente, dinâmico, corajoso, destemido, sexy, enfim, brilhante? Antes de me envolver emocionalmente com o meu primeiro – e único – parceiro, eu já sentia medo dele. E ele era temido por outras pessoas também.

A minha sorte é que ele era alguém tentando mudar, tentando se tornar alguém melhor. Ele se tornou abstêmio (pessoa que não bebe bebidas alcoólicas e não usa drogas) e eu contribui muito nesse processo. Mas a agressividade e a violência está latente dentro dele e uma vez ou outra o diabo se solta da garrafa. Como não há café, álcool ou drogas para potencializar a coisa, fica mais fácil levar o diabo pra dentro da garrafa, ou melhor, ele mesmo volta  antes de fazer grandes estragos. E o diabo só se solta para obter o bendito respeito que garante o controle total e absoluto, se solta toda vez que uma coisa foge do controle, acontece de maneira diversa do que foi planejado ou imaginado. A saída do diabo da garrafa é previsível, embora incontrolável.

Durante muito tempo vivi com medo dele também, mas recentemente eu presenciei uma cena que me fez tomar coragem e dizer pra ele, “Eu tenho medo de você!” e também de mostrar que o fim de gente assim é sempre triste, sempre. Ele não vai mudar completamente, mas tenta se controlar. E ele não é meu parente e eu não sou mais uma menina.

A LUZ

Mas o que mais me fez tomar consciência de que não vale a pena se desesperar e perder totalmente as esperanças achando que nunca vai conseguir viver sem o medo foi o seguinte: UM DIA TUDO ACABA e esse dia sempre chega!

A LIBERTAÇÃO

Meu pai e meu irmão morreram. Aqueles que meteram tanto medo, estão mortos, debaixo da terra. Um dia acordei, abri os olhos de manhã e me dei conta que não havia mais a quem temer, que existe algo muito, mais muito maior que todas as pessoas mais perigosas e aterrorizantes do mundo. Se essa coisa se chama Deus, Destino, Universo, Justiça, Morte… não interessa, não importa qual é o nome da coisa, mas essa coisa existe!

Se você que estiver lendo isso tiver coragem de dizer que sente medo e de ir embora, de se afastar daquele ou daqueles que te metem medo, vá embora! Não será covardia, será coragem! Mas caso não tenha, não se desespere, não perca a esperança, tudo vai se resolver, um dia você também vai abrir os seus numa manhã e ver que tudo acabou que o medo se foi!

Mas aí vai começar uma grande batalha, uma batalha interior, que é a de vencer os seus próprios medos, os seus medos interiores, aqueles que ninguém impingiu a você,os que você mesma(o) criou depois de viver tanto medo sob o jugo do medo.

Esperança e boa sorte!

Para nós!

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