A Resgatada

Meu pai trabalhava com materiais recicláveis e o seu forte era o comércio de aparas de papel e plásticos. No meio dos montes de sucatas de plásticos do depósito dele e de outros depósitos eu sempre encontrava  quebradas que haviam sido jogadas no lixo por suas donas. Eram bonecas quebradas, rabiscadas ou simplesmente com o cabelo estragado, eu resgatei várias delas; uso a palavra resgate, porque eu as salvava do trágico destino de serem derretidas ou moídas e voltarem a ser simplesmente plástico. Eu as levava pra casa e cuidava delas com todo o amor e carinho, na minha imaginação elas eram como as crianças que a Princesa Diana e as Misses Universo visitavam, crianças feridas e mutiladas vítimas dos horrores das guerras em seus países, vítimas da violência de seus pais,  abandonadas pela família, orfãs, perdidas… ( bonecas vão parar no lixo porque a criança quebra, porque a criança se enjoa, porque a mãe decide jogar fora, porque a dona morreu, porque a dona esqueceu em algum lugar, etc)… Acho que talvez  as fotos da Princesa e das Misses  em missões humanitárias que via nas revistas que eu pegava no depósito me impressionavam, sei lá, o caso é que a maior parte dos brinquedos da minha infância tiveram essa origem, ou seja, saíram do “lixão” dos depósitos de sucata.

Mas por que eu estou contando essa história agora? Porque em Fevereiro desse ano, depois de muitos anos, resgatei uma boneca do lixo. Eu e meu namorado caminhávamos em direção a uma pizzaria que fica perto da casa dele para comprar uma pizza para jantar em casa quando vimos uma boneca grande desmontada em duas metades jogada no lixo em frente de uma casa. No dia seguinte seria a coleta do lixo reciclável e então a boneca estava jogada junto de um amontoado de garrafas plásticas e embalagens. Meu namorado que já sabia do meu passado de “resgatadora de bonecas do lixo”, logo disse:” Olha que boneca bonita! Por que você não pega ela?”. Eu tentei resistir, me aproximei, vi que ela havia sido desmontada ao meio no encaixe que havia em sua cintura para fazer menos volume no lixo, vi que não estava quebrada, vi que o cabelo estava muito estragado e resisti dizendo: “Ah não, tá muito estragada, não tem salvação.” Fomos para a pizzaria, compramos a pizza e  voltamos pra casa. No dia seguinte, quando o relógio bateu meio dia e eu ouvi o som do caminhão de lixo e os cães latindo, meu coração bateu forte. Então, eu saí correndo pelas ruas sem raciocinar muito, com um único foco: a rua, a casa onde havia visto a boneca. A cada rua que passava e via que o lixo já havia sido recolhido o meu coração se apertava e batia mais acelerado, eu sabia que era questão de minutos o lixeiro passar pela rua e jogá-la no caminhão, onde ela logo imediatamente seria destruída. Ao chegar na rua ofegante, com o coração saindo pela boca, ao finalmente chegar diante da casa, um grande aperto no peito: o lixo não estava mais lá, a boneca não estava mais ali… meus olhos enxeram-se de lágrimas e então eu avistei uma caixa de ventilador grande na esquina… fui até a caixa tirei de dentro garrafa pet, garrafa de amaciante, frasco de detergente, mais um monte de lixo de plástico, enfiei o braço e toquei no pézinho quadradinho… Ai que alívio! Ela ainda estava ali! puxei a perninha e veio a parte debaixo do corpo, depois peguei pelos cabelos a parte de cima. Ali mesmo eu encaixei as duas partes do corpo, como se a trouxesse de volta à vida com esse ato, eu a abracei e voltei pra casa sorridente.

Um simpático catador que mora nas imediações e junta os materiais em sua casa, me viu com ela nos braços e disse: “Olha só que menina bonita você achou!” Eu disse que havia visto ela na noite anterior e que havia resistido a ideia de pegá-la e então ele disse: “Uma meninona bonita dessa… é só dar um banho nela, cuidar do cabelo, botar uma roupa que ela fica nova de novo!”

E assim eu segui andando, as ruas de repente encheram-se de crianças e adolescentes, uns indo pra escola e outros saindo, voltando para suas casas. Uns garotinhos brincaram com um colega: “Olha a moça levando uma menina pelada ali!”… e eu ri muito disso.

Ao chegar em casa, fui com ela direto para o tanque e dei-lhe um banho esfregando-a com sabão de lavar roupas. Depois foi a vez dos cabelos, lavei da única forma que conhecia: com condicionador. Passei o condicionador enxaguei, passei de novo e fiquei uma meia hora desembaraçando com uma escova e depois com um pente. Eu suei em bicas nessa operação, estava fazendo muito calor, a varanda coberta por telhas brasilit e de metal e tinha que fazer força para desembaraçar… por fim consegui dar alguma forma ao cabelo, enxaguei e enquanto o cabelo secava e cuidava de tirar os rabiscos de caneta do seu rosto com álcool. Depois fui cortar as pontas, as partes irrecuperáveis do cabelo e fiz um corte chanel.

No dia seguinte, era o dia de voltar para a minha casa. Quando íamos saindo a irmã do meu namorado, uma senhora idosa com distúrbios mentais viu a boneca e disse: “Olha que boneca bonita!”… Meu namorado contou que eu a resgatei do lixo e então ela disse: “Ah mais você vai sair com ela na rua assim, sem roupa? Eu tenho um vestido que serve nela, vou pegar!”… Na verdade o vestido não servia na boneca, servia em mim, mas eu entendi a mensagem e dei um nó nas alças atrás do pescoço da boneca e ela ficou vestida.

Na saída de casa, meu namorado que ia trabalhar de bicicleta, mas iria me acompanhar até em casa antes, disse: “Você vai levar ela assim, no braço? Coloca ela aqui na bicicleta.” Então eu a coloquei sentadinha na garupa da bicicleta e ele a prendeu com elásticos de ganchos nas ponta (extensores). Logo que começamos a andar pela rua, ele empurrando a bicicleta e eu ao lado, duas mulheres de bicicleta falaram “Levando a menina pra passear debaixo desse sol?”… nós rimos e meu namorado disse: “Levando pra casa da avó, pra ela conhecer.”…mais risos.

No caminho pra minha casa, meu namorado olhou pra ela na garupa e perguntou: “Você já deu um nome pra ela?”…Eu respondi que não, pois realmente ainda não havia pensado nisso, então ele falou, já batizando: “Anne Frank”. Então eu perguntei o porque do nome e ele respondeu que era por causa do cabelo, que parecia com o cabelo da icônica foto da célebre menina judia com os cabelos esvoaçantes.

Chegando na minha casa, depois de fazer os serviços domésticos, no fim do dia à noite, fui cuidar dos cabelos de Anne. Com o Babyliss,  alisei e enrolei as pontas pra dentro modelando o penteado chanel, nesse processo mais pontas estragadas foram cortadas.

Vesti nela a parte de cima do meu primeiro biquini, que eu usei aos 3 aninhos de idade e uma sainha improvisada. Na ocasião da morte da atriz Shirley Temple, fiz uma singela homenagem à estrela fotografando Anne vestida com o vestido que usei no meu batizado e usando uma peruca de cabelos louros cacheados.

Há poucas semanas eu presenteei Anne com um vestidinho de veludo e um par de sandálias de plástico (sou uma apaixonada por Melissas e todos os calçados de borracha/plástico). Também resolvi fazer nela a tal “Progressiva da Barbie” tão compartilhada na internet que não passa de uma lavagem com detergente, seguida de um tempo de molho em amaciante e depois um enxágue com água quente e depois água fria. Confesso que fiquei um pouco decepcionada, esperava que essa lavagem deixasse o cabelo da Anne mais bonito, mas não houve muita melhora não. Ficou macio, solto e cheiroso, mas não brilhante. Li em um blog que o segredo para brilho e conservação é passar silicone automotivo. Ainda estou pensando se vou experimentar passar esse silicone… Enfim, essa é a história de Anne, a resgatada.

 

 

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