Prostituta da Arte

Há uns anos atrás numa oficina de contação de histórias, a professora falou uma frase que se fixou em minha memória e que atualmente ando refletindo muito sobre ela : “Não quero ser prostituta da minha arte.”

O contexto onde foi dita essa frase, foi o seguinte: A professora estava falando sobre as críticas que ela recebia por não aceitar convites para contar histórias em alguns, lugares e situações como por exemplo, em festas infantis, que é um ambiente totalmente inapropriado para a realização dessa atividade, por motivos óbvios. Bem as críticas ocorriam baseadas na questão financeira, no dinheiro,  aquela velha história de sempre: se é para ganhar dinheiro, “vá há qualquer lugar e faça qualquer coisa” , afinal um artista ganhar dinheiro é algo difícil.

Sabe aquela velha máxima, “o artista tem que ir aonde o povo está”? Pois então, isso só vale quando tem dinheiro na jogada. Vai ter dinheiro? Vá a qualquer lugar e faça qualquer coisa que for preciso fazer ou que consiga fazer. Não tem dinheiro? Não vá e pronto acabou.

Fazer uma coisa que não tem nada a ver com você, que não acrescenta nada para ninguém, algo sem utilidade e sem razão de ser, algo para mero entretenimento de outros, somente pelo dinheiro…para quem é artista de verdade, é triste, muito triste…

Se você que está lendo isso é uma pessoa prática e objetiva, uma pessoa boa em cálculos ou que já viveu situações de miséria, tudo o que estou falando aqui é um monte de abobrinhas, nem perca seu tempo em continuar lendo.

Agora se você é alguém com algum pingo de sensibilidade, continue, talvez você consiga compreender a coisa toda.

APTIDÃO NATURAL

Imagine que você é uma pessoa com uma aparência atraente, que gosta de sexo e não tem nenhum trauma, complexo e mania ou orientação, opção diferente, enfim, você não tem nenhum problema sexual, leva uma vida sexual normal e satisfatória. Você faz sexo com pessoas com quem você está apaixonado, pessoas com quem você e tem algum tipo de relacionamento ou simplesmente pessoas por quem sinta uma forte atração física e a coisa seja recíproca. Bem, um belo dia alguém sugere que você passe a fazer sexo por dinheiro, que transforme isso em profissão e os principais motivos que levam a pessoa a fazer essa sugestão são: Você ser bom de cama e ser pobre, ou seja, precisar de dinheiro.  E então várias pessoas começam a sugerir o mesmo e o número delas cada vez aumenta mais e então surge aqueles que já se vendem e mostram que dá mesmo para ganhar dinheiro e a coisa vai piorando, o que era apenas uma sugestão começa a virar uma cobrança constante e aí surgem mais pessoas concordando e cobrando e então começa a pressão, que vai ficando cada vez mais forte até um limite quase insuportável.

Somente porque você é gosta, é bom no que faz e é pobre, você tem que deixar os sentimentos, o seu direito de escolha e os seus princípios e SE VENDER. Você deve fazer algo que você gosta , que você faz por amor e com carinho por dinheiro, só porque você deu o azar de nascer pobre e no meio da miséria e de pobres de espírito.

Em resumo, nasceu com aptidão natural e tá na merda, se venda!

Se imaginou na situação? Pois é isso que muitos de nós artistas vivemos todos os dias.

TEMPO ANTIGO

Isso não é algo novo, desde a antiguidade artistas passam por isso, mas quando atividades artísticas se tornaram profissões regulamentadas a coisa piorou e depois do surgimento do show business, onde “arte” se tornou um negócio, a coisa toda se tornou o inferno que é hoje.

Existem muitas histórias de pintores, escultores e até alguns músicos, cujas obras de arte só foram valorizadas após a morte dos artistas. É comum as pessoas se surpreenderem ao saberem que um quadro que hoje é vale milhões foi pintado por um sujeito que viveu e morreu na miséria, mas o que pouca gente sabe é que talvez o artista não quisesse vender o seu quadro, por valor nenhum, que o artista não pintava ou esculpia pra ganhar a vida, porque não sabia, não servia ou não queria fazer outra coisa da vida.

Obra de arte ser feita como um produto para ser vendido, de certa forma sempre existiu, mas as grandes obras primas, a maioria delas, não foi feita apenas pelo dinheiro que mataria a fome ou compraria bens, elas não foram feitas como um “trabalho”.

No tempo antigo a palavra “trabalho” não era associada a palavra ARTE e muito menos era sinônimo. Artistas não eram considerados “trabalhadores” e nem queriam esse título – alguns inclusive o abominavam – artista era uma outra categoria de gente, uma categoria à parte, diferente da nobreza, dos religiosos e da plebe trabalhadora e admirados e exaltados justamente por causa disso. Se nascesse pobre tinha que encontrar um mecenas, e é claro que como naquela época só eram reconhecidos os artistas genuínos, os realmente dotados de talento e persistência sempre encontravam algum, seja na nobreza, no clero ou nos tempos mais modernos na burguesia.

Hoje, por causa da mercantilização, da arte ter se tornado um negócio, de ter se tornado uma atividade qualquer, que qualquer um pode aprender numa escola, as grandes obras de arte, as obras primas, desapareceram, só existem as do passado, nos museus. Até existem artistas genuínos, mas estes são logo prostituídos e se tornam infelizes viciados ou deprimidos.

PESO NA CONSCIÊNCIA

Imagine ir para a cama com pessoas por quem você sente nojo apenas pelo dinheiro e pela pressão de pessoas martelando na sua cabeça que era o melhor a ser feito… É assim que se sente um artista pobre todas as vezes que tem que fazer algo que não tem nada a ver com o seu perfil ou mal feita, para um público que se contentaria ou ignoraria com qualquer coisa que lhe oferecessem.

Muitas vezes os artistas jogam pérolas aos porcos, outras se atiram na jaula dos leões. Com o tempo não busca mais pérolas e passa a produzir uma boa e substanciosa lavagem e aprende a manejar o chicote e quando se joga aos leões, fazem as feras pularem arco de fogo e até entrarem na água…vai aprendendo a sobreviver no mundo cão, mas vai perdendo a sua essência de artista e aí vem o peso na consciência.

O artista vê os ignorantes aplaudirem e parabenizarem as merdas que ele faz, se deliciarem e se lambuzarem com a lavagem, com as chicotadas… vem o dinheiro, sempre pouco perto de todo o sacrifício e esforço feito, porque quanto mais merda for, quanto mais fácil for de fazer, menos arte e assim, mais stress, mais esforço e sacrifício da mente, da alma… o dinheiro maldito que não rende, que não traz felicidade, pois com a consciência pesada, tudo o que você compra não traz felicidade; a comida não alimenta porque o eu está faminto e sedento de paz; o corpo não se alimenta porque não se recupera no sono, porque a mente não relaxa para sonhar, a consciência pesa demais, as coisas materiais não satisfazem porque não podem preencher o vazio, os relacionamentos não criam raízes porque a terra do coração está árida…

 

A IGNORÂNCIA É UMA VIRTUDE

Isso já virou tema de filme, inclusive do último vencedor do Oscar, Birdman.

Muita gente não entendeu o filme e é aí que a gente vê o significado do outro título do filme “A inesperada Virtude da ignorância”.

Como são felizes os ignorantes! Como é ruim ter consciência dos fatos!

As pessoas que possuem consciência se dividir em dois grupos: aqueles extremamente sonhadores que acreditam em tudo o que não existem e confiam em tudo o que não é de confiança, que se acham o máximo, mas acreditam que são um poço de humildade – e isso é justamente o que indica que não são humildes, pois quem realmente o é, não acha que é e muito menos diria que é – mas que possuem uma vozinha interior que fala toda a verdade para eles, que martelam todos os dias dizendo: “você está errado” , “isso é besteira”, “você não vai conseguir”,”como você pôde ser tão falso?”, “não minta tanto!”, “você nunca vai ser tão bom quanto ele/ela”, “você vai se arrepender de ter feito isso”, “Deus ou o seu santo não vai poder te ajudar nessa, o que você fez é errado”, etc…

E aqueles realistas que só acreditam no que vêem, que necessitam de provas para acreditar e confiar, que analisam, que refletem, que acham que nunca são bons o suficiente em nada, que sempre há muito o que fazer e o que melhorar e que possuem uma vozinha interior imbecil que diz: “Vai lá, você consegue!”, “Se valoriza!” , “Essa pessoa não vale tudo isso.”, “você errou tudo bem, esqueça e comece de novo”, “tente outra vez!”, “você fez o melhor que poderia fazer”, “Não pense tão negativo!” etc…

Ignorar a realidade é uma benção, a ignorância é uma virtude. A pessoa que ignora a realidade e a verdade e quer continuar ignorando é uma pessoa virtuosa e será sempre feliz. Vilões sempre dão gargalhadas e retardados sorriem o tempo todo…são arquétipos universais.

Se o artista for abençoado com a virtude da ignorância, será feliz se prostituindo da mesma forma que prostitutas que se vendem nas calçadas sentem orgulho de sua “profissão”, se não for um virtuoso a consciência vai pesar muito com a prostituição.

Em Birdman, após se prostituir muito , o artista decide fazer arte de verdade, sendo o seu próprio mecenas, mas o resultado, o que sobrou , as consequências dos anos de prostituição são pedras enormes no caminho, os porcos cobram a lavagem e os leões querem levar chicotadas e para piorar tudo ele tem uma parte de sua consciência totalmente prostituída, uma puta genuína que o atormenta o tempo todo… só há uma solução: deixar de ser artista… Ser ou não ser; eis a questão. Há como deixar de ser aquilo que se é? Isso não significaria morrer?

SER OU NÃO SER PROSTITUTA da própria arte?

Eis a questão, a dúvida cruel… os prognósticos por parte daqueles que fazem pressão é sempre o pior possível:

“Vai passar fome”, “uma hora a água vai bater na bunda”, “isso é orgulho e na hora que a barriga roncar virá de quatro pedindo Pelo Amor de Deus”, “Um dia vai topar fazer qualquer coisa” , “Quando a beleza e a juventude acabar vai se ferrar feio”,etc, etc…

Existem aqueles que dizem “Siga o seu coração!”

Se um artista é alguém sensível, “seguir seu coração” parece ser o que mais “combina” com a sua maneira de ser e sendo assim o mais coerente a ser feito.

 

 

 

 

 

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